domingo, 26 de abril de 2015

Adonis, o filho do pastor



Adonis, o filho do pastor 

Adoni-Zedeque, rapaz moreno, corpo esguio e estatura forte, herdou olhos esverdeados da família da mãe. Adonis, foi assim que ficara conhecido por muitos pela dificuldade que as pessoas tinham em pronunciar o nome que lhe fora dado por Severo, seu pai,  que sempre o chamava pelo nome completo. Com seus quase um metro e oitenta, Adonis era um jovem rapaz muito educado, gentil, de fala mansa e olhar suave. Era filho único de dona Amália e do pastor Severo, influente líder de uma igreja neopentecostal sediada na capital paulista com filiais no interior de São Paulo e sedes em outros estados. Era um rapaz que mesclava momentos em que demonstrava ser bem extrovertido e outros em que aparentava uma personalidade introvertida, mas sua maneira educada e gentil sempre fez dele um jovem muito querido por todos na igreja do seu pai, na escola e na vizinhança. “É um ótimo rapaz, muito educado e estudioso” dizia uma fiel da igreja de Severo que Adonis cresceu frequentando os cultos que o pai ministrava. Severo, pai de Adonis, era homem de aparência sempre elegante que gostava de roupas sociais clássicas e com bons cortes que combinavam com seu aspecto de pessoa sociável, mas sempre muito sistemático.

Adonis, ou Adoni-Zedeque como prefere Severo, desde pequeno frequentou a Igreja de seu pai, desde o tempo em que ela não passava de um pequeno salão na região de Vila Matilde que em nada se compara ao templo de hoje na Liberdade. Depois de crescido, algumas vezes, Adonis junto com sua mãe acompanhava as viagens do pai que ministraria cultos no interior de São Paulo e em inaugurações de novas sedes da igreja em outros estados. Adonis sempre se encantava com a verve do pai pregando para igrejas cheias e para as multidões que se formavam nos famosos sermões da montanha e nos grandes encontros realizados em campos de futebol ou grandes áreas reservadas para eventos. Os olhos dele brilhavam quando via os fiéis em verdadeiro êxtase ouvindo os sermões que o pai preparava dias antes. Severo sempre pregava em defesa da família cristã tradicional, contra o aborto, mas a sua verve se tornava mais eloquente quando pregava contra o “homossexualismo”. Desde muito cedo, sob o olhar do filho e da esposa, o pastor Severo dizia para seus fiéis em voz apocalíptica:

- Irmãos e irmãs, o demônio do homossexualismo quer destruir a família brasileira! 

- A palavra de Deus condena o homossexualismo como está escrito no livro de Levítico 18:22 “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher, é abominação”. O homossexualismo meus irmãos e irmãs é apenas uma porta que levará muitos para as drogas, para o alcoolismo e para a pedofilia, por isso, irmãos, devemos nos livrar desse mal.

Dizia o pastor Severo aos brados. E continuava:

- E agora, irmãos e irmãs, essas pessoas doentes e pecadoras estão querendo privilégios! Querem aprovar uma lei que legalize as suas práticas imundas e querem punir quem disser algo contra a vida de pecado deles. Falar do que diz a palavra de Deus, irmãos e irmãs, será crime, vamos nos mobilizar contra essa lei que institucionaliza a prática do pecado que condena a bíblia, vamos pressionar nossos irmãos e irmãs de fé no Congresso para não aprovarem leis que permitam que isso seja crime, pois esses demônios querem calar a palavra de Deus e implantar no Brasil uma ditadura gay. Amém, irmãos e irmãs?!

Em resposta às falas de Severo os fiéis sempre respondiam amém.    

- Irmãos e irmãs, caso vocês suspeitem ou constatem que algum membro da sua família sofra dessa doença não os abandone, traga-os para a casa de Deus, traga-os para a nossa igreja para que possamos orar e curarmos e libertamos esse seu parente da possessão demoníaca do homossexualismo.

E finaliza o sermão, o pastor Severo:

- E se vocês, irmãos e irmãs, me perguntarem por que não abandonarmos essas pessoas doentes e possuídas pelo demônio do homossexualismo, eu vos digo, Jesus na Bíblia nos ensina que devemos amar o pecador, mas não o pecado. Portanto, irmãos e irmãs, a cura do homossexualismo é Jesus! Amém, irmãos e irmãs?!

E os fiéis todos respondem em uníssono:

- Amém, pastor, amém!

Quando ainda era criança, Adonis, orgulhoso e impressionado com o poder do pai de atrair e prender a atenção de multidões com seus sermões chegou a pensar em seguir seus passos e ser pastor como ele. Já crescido, o rapaz sonhava mesmo era em ser ator ou artista plástico pelo encanto que sempre teve com as artes em geral, mas foi alertado pelo pai que caso escolhesse esse curso a família seria alvo de chacotas das pessoas por escolher um curso onde existem muitos homossexuais. Severo dizia ao filho que esses cursos são considerados “cursos de mulherzinhas”. “Cursos para homens de verdade meu filho, são engenharia, medicina ou administração” dizia ele. Severo alertava o filho que esse ambiente de atores e artistas plásticos eram repletos de “viado e sapatão” e que ele ficaria com má fama e que o ambiente não seria apropriado para o filho de um ministro da igreja e que poderia acabar sendo contaminado pela má influência dos muitos homossexuais presentes nesses locais. Anos depois, quando já no final do ensino médio e se preparando para prestar o vestibular, Adonis se lembrou dessa conversa e mesmo demonstrando certa contrariedade resolveu acatar a ideia do pai e decidiu então prestar vestibular para administração. O pai, feliz com a obediência do filho, tentava lhe animar e incentivar dizendo “Um grande administrador poderá administrar grandes multinacionais e também saberá administrar os bens da nossa família!” e sorria contente com a escolha do filho. 

Nos finais de ano, algumas vezes, era comum Adonis viajar com seu pai e sua mãe para cultos e encontros de igrejas em outros estados, mas nesse ano Adonis não poderia viajar, pois prestaria o seu primeiro vestibular na USP para Administração. Apesar de ter estudado nos melhores colégios e escolas e ter frequentado um dos melhores cursos pré-vestibulares, mesmo assim, como muitos outros vestibulandos, a ansiedade tomou conta de Adonis naqueles dias que antecediam as provas. Até mesmo as avaliações da escolha do curso influenciada pelo pai, que sempre lhe povoavam as lembranças, desapareceram naqueles dias que antecediam a primeira etapa do vestibular.

O pai de Adonis viajou sozinho e a mãe dona Amália ficou para dar apoio ao filho durante o período do vestibular. Dona Amália era só orgulho de ver o filho já crescido agora se preparando para entrar na universidade. Apesar do orgulho, uma sensação estranha lhe ocorria quando ela pensava no filho frequentando a USP que sempre foi um sonho dela não realizado, afinal, havia se casado muito cedo com Severo, logo engravidou de Adonis e depois por ter sentido obrigada a ajudar o marido com as questões da igreja. Um frio percorria a espinha de Amália quando ela pensava no filho na universidade. Ela não entendia aquela sensação estranha, mas Severo sempre tentava tranquiliza-la quando ela falava sobre esse incômodo “É emoção de ver nosso filho crescido e se encaminhando bem na vida” e completava “Fomos abençoados com nosso Adoni-Zedeque, ele é um orgulho para mim e um exemplo para nossa igreja!” dizia orgulhoso. Dona Amália continuava com a sensação estranha mesmo após as falas do marido tentando persuadi-la.

Nessa ocasião, o pai de Adonis participava de um encontro de Igrejas em Belo Horizonte e resolvera prorrogar a estadia na cidade para resolver algumas pendências do encontro. Esse fato, de certa forma, preocupou um pouco a dona Amália que nem suspeitava, mas Severo estava hospedado num hotel no centro da cidade próximo a uma zona de prostituição, mas dona Amália confiava no marido, mesmo muitas vezes não gostando quando ele viajava sozinho e prorrogava a data de retorno para São Paulo.

Enquanto o pai resolvia as suas pendências na Capital de Minas Gerais, Adonis fez a prova da primeira etapa para o curso de administração, quando voltou para casa estava confiante que alcançaria a nota de corte para poder passar para a segunda etapa do vestibular. Enfrentava uma sensação estranha, não de felicidade, mas como se estivesse matando algo dentro de si. Essa sensação veio junto com as lembranças dos seus sonhos em ser ator ou artista plástico e da escolha do curso influenciada pelo pai. Nessa confusão de sentimentos, na cabeça de Adonis chegou a passar a ideia de propositalmente não passar na segunda etapa caso fosse classificado na primeira. Naquele momento pensou também em “chutar o balde”, jogar tudo para o alto e seguir o caminho que ainda povoava seus pensamentos. Lembrou-se do verso de uma música que um dia ouvira em uma dessas “rádios que tocam músicas do mundo” como dizia seu pai em reprovação às emissores não gospels, e a letra era assim: “E por você eu largo tudo, carreira, dinheiro, canudo, até nas coisas mais banais, pra mim é tudo ou nunca mais”. Mesmo escondido dos pais, Adonis era fã de Cazuza. Achou aqueles pensamentos exagerados e deu de ombros para eles, mas as lembranças do alerta do pai sobre as chacotas de que eles seriam alvos por ele escolher um curso repleto de “viados e sapatões” também já não faziam qualquer sentido. Lembrou-se também de todos os sermões em que ao longo de sua vida ouvira seu pai pregar contra os homossexuais, mas apesar disso, naquele dia, as lembranças daqueles sermões já não conseguiram lhe provocar qualquer sentimento negativo em relação a eles como um dia já chegou a sentir. Sentiu pena de si mesmo, apenas isso.


Quando saiu a lista de aprovados na primeira etapa, a confiança de Adonis de que alcançaria a nota de corte para poder passar para a segunda etapa do vestibular se concretizou e o nome dele constava na lista de aprovados. Junto com sua mãe e seu pai comemorou a vitória na primeira etapa do vestibular. Nesse dia, Severo dedicou o culto à vitória do seu filho na primeira etapa do vestibular e pediu para que seus fiéis orassem para que ele conseguisse passar também na segunda etapa. Adonis não foi ao culto naquele dia e o pai justificou dizendo que ele tinha que estudar muito para a segunda etapa do vestibular, mas a verdade é que desde o dia da prova da primeira etapa Adonis passou a não sentir mais vontade de frequentar a igreja do pai. Naquele dia da prova algo morreu em Adonis e algo havia mudado dentro dele, não sabia explicar o que era, mas decidiu que não lutaria contra aquele sentimento que o invadia completamente e que tanto lhe fazia bem.
  
Menos de quinze dias após o resultado da primeira, Adonis lá estava fazendo as provas da segunda etapa. No final da prova uma sensação diferente invadia toda a alma de Adonis, uma sensação de alívio e felicidade imensa com os pensamentos de que não poderia mais ir com frequência à igreja por causa dos estudos. E também a felicidade vinha da sensação maravilhosa da possibilidade de conhecer novas pessoas, respirar novos ares e porque não conhecer uma pessoa que pudesse vir a ser o grande amor da sua vida. Pensou que precisaria deixar a casa dos pais e viver a sua própria vida. Depois de ter feito a prova, Adonis foi embora para casa, mas naquele dia sentia que não era mais o mesmo rapaz, não era mais a mesma pessoa, estava feliz como nunca havia estado na vida. Sentia-se amadurecido, livre de certa forma, enfim, sentia-se imensamente feliz, completo. Dias depois, Adonis junto com sua mãe foi consultar a lista de aprovados na segunda etapa e como se toda a sua vida se resumisse e dependesse de ver naquela lista o seu nome, que diga se de passagem nunca gostou, preferia Adonis, seu coração veio à boca e lá estava o seu nome “Adoni-Zedeque Lima Alves” e gritou:

- Passei, porra! Estou livre!

Foi a primeira vez que Adonis disse um palavrão na sua vida, mas não se arrependeu mesmo estando ao lado de sua mãe que chorava e sorria ao mesmo tempo, mas ainda sentia aquela estranha sensação na espinha, mas ela pensou consigo mesma “É emoção, como diz Severo, é emoção!”. Pastor Severo estava no centro resolvendo questões das suas contas bancárias e dona Amália lhe telefonou feliz para dar a grande notícia de que o filho havia passado no vestibular. Severo pediu para falar com o filho ao telefone, mas Adonis disse que depois falaria com o pai pessoalmente. À noite, quando Severo voltou para casa, Adonis se encontrava trancado em seu quarto e ouvia aquelas músicas que o pai sempre tratava como “músicas do mundo” e eram proibidas naquela casa. Muitas vezes Adonis ouvia escondido essas músicas, mas naquele momento ele nem mais se preocupava em manter o volume do som mais baixo. Adonis ouvia “A tua piscina tá cheia de ratos tuas ideias não correspondem aos fatos. O tempo não pára” Adonis adora esses versos. 

Nem mesmo a felicidade pelo filho ter passado no vestibular impediu que Severo desse uma bronca em Amália. Muito nervoso, Severo falava alto dizendo que Amália tinha que chamar atenção do filho pela sua desobediência. Irado Severo gritava:


- Não aceito esse tipo de música que você está deixando seu filho ouvir aqui dentro da minha casa!

Adonis estava realmente mudado. O pai lhe chamou para ir à igreja agradecer aos fiéis pelas orações, mas ele disse que não poderia, alegou que precisava preparar alguns papéis para fazer a matrícula, mas ele já havia preparado toda a documentação mesmo antes de saber o resultado final do vestibular.

O dia da matrícula seria o dia em que Adonis iria comemorar de verdade a sua entrada na USP, ficou sabendo por colegas do cursinho que o trote seria apenas os homens se vestirem de mulher e desfilarem pelo campus com os rostos pintados e com uma placa escrito “bixetes”. Tudo era animação para Adonis e apesar do seu pai ter tentado proibi-lo de participar do trote, para ele isso seria uma espécie de novo batismo para o começo de sua nova vida. Ele não abriu mão de participar do trote. Não quis ir com o pai de carro, pois havia combinado com colegas de se encontrarem e irem de ônibus e metrô.
         
O trote realmente foi um verdadeiro "batismo" para Adonis que se divertiu como nunca havia experimentado em toda a sua vida. Os futuros colegas de sala marcaram de ir à noite para um barzinho que fica próximo ao campus para fechar o dia com chave de ouro. Adonis nunca foi um rapaz de frequentar barzinhos, seu pai sempre via isso praticamente como um desvio da igreja e de Deus em direção as coisas mundanas, mas dessa vez ele não queria perder a oportunidade de comemorar a sua entrada na universidade e o início de uma vida nova em companhia dos seus futuros colegas calouros e veteranos. Queria experimentar novas sensações, queria ser feliz, ser livre, enfim, queria viver. Adonis parecia que queria viver naqueles dias toda uma vida que não foi vivida. Ficou combinado entre os colegas que para zoarem no bar levariam roupas de mulher como as usadas no trote durante a matrícula.

Quando chegaram, o bar já estava movimentadíssimo. Adonis ficou maravilhado, encantado com tanta gente diferente, interessante e bonita, conheceu várias pessoas, conversou sobre o período do curso pré-vestibular, bebeu um pouco com seus colegas que riram muito quando ele disse que nunca havia tomado qualquer bebida alcoólica. “Adonis, perdeu a virgindade!” gritavam os colegas em tom de zoação. Adonis dançou, desfilou vestido de mulher, riu, brincou, enfim, esqueceu da vida e quando olhou para o celular havia várias ligações do seu pai e do telefone fixo da sua casa. Não retornou, pensou em ligar quando estivesse indo embora, mas preferiu enviar uma mensagem ao pai dizendo que estava tudo bem e que não se preocupassem, pois ele voltaria para casa de táxi com amigos. Enquanto a farra no bar ainda continuava, Adonis e alguns amigos resolveram ir embora, já era madrugada e conseguiram uma carona até o centro de cidade. Chegando ao centro, decidiram ir para uma boate e curtiram até quase três da manhã.  Adonis e seus novos amigos, Rodrigo, Marcelo e Esdras já estavam meio bêbados e resolveram então ir andando pelas ruas até encontrarem um ponto de táxi.

Adonis sentia-se a pessoa mais feliz do mundo. Tinha a sensação de ter sido mais feliz naqueles dias, horas, do que fora em todos os seus 19 anos de vida. Abraçados, os quatro riam alto e se divertiam lembrando-se das piadas, do trote da tarde do dia anterior e com as histórias do bar. Faziam promessas de amizade eterna, pactos e outras promessas que os calouros sempre costumam fazer. Desceram os quatro abraçados e efusivos pela rua da Consolação até chegarem à Paulista ainda meio bêbados. Na verdade aparentavam mais bêbados de felicidade do que sob o efeito do álcool propriamente dito. Ainda se encontravam vestidos de mulher e com os rostos que haviam sido pintados ainda no bar e riam e achavam graça de qualquer coisa que encontrassem pelo caminho. Caminhavam pela Paulista, quando entraram na Rua Haddock Lobo, de repente avistaram um grupo de umas dez pessoas vindo em direção a eles. Mais perto puderam perceber que se tratava de um grupo de homens todos carecas, fortes e tatuados. Ao se aproximar, o grupo cercou os quatro amigos e começaram a insultá-los chamando Adonis e seus colegas de “Bichas escrotas!”, gritavam “Morte às bichas!” e partiram para cima dos quatro jovens com muita brutalidade, um dos carecas estava com o espécie de “tchaco” e desferiu um golpe no rosto de Adonis que caiu no chão e ainda tentou argumentar com os agressores dizendo:

- Não fizemos nada, somos calouros comemorando termos passado no vestibular, não somos de briga.

Adonis levou um chute no rosto enquanto tentava se levantar. Um dos homens dava uma gravata em Marcelo, e outros corriam atrás de Rodrigo e Esdras que conseguiram escapar e desaparecer numa esquina logo à frente. Os que perseguiam os dois amigos de Adonis, voltaram e juntos passaram a dar socos em Adonis e em Marcelo que tentavam se defender meio cambaleantes pelos chutes e socos que levaram no rosto e na barriga.

- Vamos livrar São Paulo e o mundo dessa raça abominável!

Gritavam os carecas enquanto continuavam uma série de socos no rosto e pancadas em Adonis, desferidas com o “tchaco” de um dos carecas. Adonis estava caído com o rosto bastante ensanguentado e sentia que o seu nariz estava quebrado e ainda chegou ouvir em meio aos chutes a frase:

- Vocês são doentes! Deus odeia vocês, suas bichas filhas da puta!

Adonis chegou a lembrar dos muitos sermões do seu pai em que ouvia coisas parecidas, mas a dor era tamanha que não conseguiu concatenar ideias. Já não conseguia enxergar nada, pois a sua visão estava comprometida, mas ouvia gemidos próximos dele que imaginava ser de Marcelo. Adonis com o rosto colado ao asfalto sentia algo frio sair da sua boca e escorrer pelo asfalto, era sangue. Antes de um chute que recebera na cabeça, Adonis ainda ouviu uma última frase antes que um outro chute provocasse um apagão total daquela cena de sangue e dor da qual ele era personagem:

- Morram, suas bichas doentes!

Já passavam das cinco horas da manhã quando o telefone do pastor Severo tocou com um número desconhecido. Era alguém de um hospital perguntando qual era o parentesco que ele tinha com Adoni-Zedeque Lima Alves. Assustado, mas frio, Severo respondeu perguntando ao mesmo tempo:

- É meu filho, o que aconteceu com ele?

A moça disse que ele possivelmente havia participado de uma briga com alguém e que estava muito machucado e pediu que ele comparecesse com urgência ao hospital e passou a localização. Dona Amália perguntou apavorada o que era, mas Severo apenas disse que Adonis havia brigado na rua. Dona Amália aterrorizada chegou a desabafar:

- Mas meu filho nunca foi de briga!

Severo vestiu às pressas o seu terno, pensou em ligar para o motorista que chegaria em poucos minutos, mas resolveu ele mesmo pegar o carro e ir em direção ao endereço do hospital que a atendente havia passado.
O hospital ficava a meia hora de carro da casa do pastor Severo nos Jardins, mas vinte e um minutos depois ele chegou com dona Amália que chorava e não entendia direito o que havia acontecido com seu filho. Severo não havia dado detalhes sobre a ligação do hospital para ela. Desceram às pressas do carro e na entrada do hospital perguntou:

- Onde está meu filho Adonis?

Foi a primeira vez que Severo chamou Adonis pelo apelido e a atendente em fim de plantão disse que iria chamar o médico, ao que Severo desesperado gritou:

- Não quero médico, quero ver meu filho!

A moça pediu calma a Severo e disse que o médico conversaria com eles e pediu que aguardassem ali mesmo, mas ele não obedeceu e saiu atrás da atendente que no corredor encontrou com o médico que vendo a cara de terror de Severo e Amália foi conversar com eles. Desnorteado, Severo perguntou:

 -Onde está meu filho, doutor, como ele está? Quero vê-lo!

O médico disse para Severo e sua esposa que Adoni-Zedeque estava naquele momento sendo atendido no CTI e que o estado dele era grave e que havia suspeita de traumatismo craniano, mas que ainda necessitava dos resultados de alguns exames complementares para se confirmar ou não essa suspeita. Com voz embargada Severo pediu:

- Posso ver o meu filho, doutor, pelo amor de Deus?

O médico explicou que o filho deles passava por uma tomografia naquele momento e que depois eles poderiam ir ao CTI para vê-lo apenas por alguns minutos por não ser horário de visitas. O tempo parecia não passar para o pastor Severo e Amália. Em meio a pacientes amontoados nas enfermarias daquele hospital público, Severo disse à Amália que pediria para que Adonis fosse transferido para um hospital particular com melhores condições. O médico neurocirurgião que atendia Adonis disse a Severo que precisaria de algum tempo para avaliar as condições para ele ser transferido, pois devido à gravidade do seu caso a transferência poderia agravá-lo ainda mais naquele momento.

Severo e Amália enfim conseguiram a permissão do médico para entrarem no CTI e ver Adonis. Ao se aproximar do box em que ele se encontrava , dona Amália o viu todo entubado e não resistiu, desmaiou, precisou ser amparada por uma enfermeira. Severo tentava conter as emoções, mas ao olhar para o rosto completamente desfigurado do filho chegou a duvidar e perguntar para a enfermeira:

- É meu filho?

E a enfermeira disse baixinho:

- Senhor, o nome do paciente tá escrito na identificação do leito.

 E com o prontuário na mão ao lado do leito, a enfermeira repetiu o nome que Adonis não gostava e disse:

- Adoni-Zedeque, é assim que pronuncia?

Severo respondeu com um aceno positivo da cabeça e foi em direção ao lado oposto onde Amália se encontrava ainda cambaleante. Nesse momento o médico apareceu e os chamou  para uma sala na saída do CTI e disse que a tomografia de Adonis havia detectado um traumatismo craniano, que o estado dele era gravíssimo, e que, portanto, a transferência naquele momento poderia ser perigosa. Dona Amália se desesperou. Severo com a mão na cabeça não sabia o que fazer. Perguntou ao médico o que realmente havia acontecido. Doutor Marcos disse que outro rapaz também havia chegado ao hospital junto com Adonis e que também estava muito machucado, disse também que recebera apenas a informação de que eles supostamente tinham sido atacados por um grupo de carecas no centro da cidade, mas pediu ao casal que se dirigisse até a portaria para conversar com a atendente para saber mais detalhes.

Na portaria, Severo e Amália em choque, quiseram saber da atendente que já largava o plantão, o que havia acontecido. Queriam saber como Adonis e o outro rapaz chegaram ao hospital. A moça reconhecendo o pastor Severo disse-lhe já indo embora:

- Irmão, me desculpe, mas eles chegaram aqui vestidos de mulher e seu filho também estava com o rosto pintado parecendo com esses travestis abomináveis que ficam aí pela rua.

Disse a moça para Severo com cara de menosprezo e desaprovação. E antes de ir embora a atendente do hospital finalizou:

-Os dois rapazes que deixaram eles aqui disseram que eles tinham sido atacados por um grupo de carecas perto da Avenida Paulista.

A atendente disse que precisaria mesmo ir embora porque senão perderia o seu ônibus e despediu de Severo e Amália:

 - Paz do senhor, irmãos!

Doutor Marcos havia aconselhado a Severo e sua esposa, se caso quisessem, que poderiam voltar para casa e retornassem no horário de visitas ou algumas horas depois, pois naquele momento tudo estava sendo feito para que Adonis recebesse a atenção que necessitasse e que assim que o quadro dele se estabilizasse providenciariam a sua transferência para outro hospital, como eles assim o desejavam.


O dia já havia amanhecido. Era por volta das oito da manhã, Severo muito abalado já entrava no carro para ir embora do hospital como o médico recomendara, foi quando o seu telefone tocou. Era a moça do hospital dizendo que o médico precisaria falar com ele com urgência. De um salto, Severo e Amália entraram de novo na portaria do hospital e ele disse bem alto:

- Sou o Severo, pai de Adoni-Zedeque, o que aconteceu?

 E o médico que já adentrava o corredor do hospital fez meia volta e os chamou para a uma sala ao lado e lhes deu a notícia:


- Senhor Severo, sinto muito, nós fizemos tudo o que podíamos, mas o filho de vocês não resistiu ao traumatismo e teve morte encefálica há alguns minutos. Sinto muito, fizemos de tudo, mas diante da gravidade das lesões e da quantidade de sangue que vazou para o cérebro formando vários coágulos ele não conseguiu resistir.

Desesperados, Severo e Amália perguntaram quase em uníssono:

- Mas isso não tem reversão, doutor? 

E doutor Marcos responde:

- Infelizmente não. Fizemos tudo que estava ao nosso alcance, mas o seu filho já chegou aqui em estado muito grave, bateram muito nele na região da cabeça, o caso dele era gravíssimo.

Severo e Amália eram o próprio semblante do desespero e como há muito não faziam, se abraçaram e desabaram num choro desesperador que se ouvia pelo ainda silencioso corredor daquele hospital. Em meio a soluços e choro desesperado, Amália gritava inconsolável:

- Eu quero meu filho, eu quero meu filho, meu Deus!

- Oh meu Deus! Porque o senhor levou meu filho desse jeito?

- Oh meu Deus! Eu não vou suportar viver sem meu filho, ele tinha toda a vida pela frente!

Uma senhora que estava chegando ao hospital assistiu ao desespero do casal e caminhou na direção deles querendo saber o motivo de tanto desespero ao que ouviu de Amália o desabafo:

 -Nosso filho foi espancado e acabou de morrer.

Era dona Berenice que revelou ao casal que o filho dela também estava internado ali muito machucado após ser vítima de um ataque homofóbico na Paulista de madrugada quando comemorava com amigos ter passado no vestibular da USP. Dona Berenice era a mãe de Marcelo, que também estava com Adonis e os outros amigos naquela madrugada. Severo muito abalado perguntou se o filho dele estava com o filho dela e dona Berenice respondeu que sim,  e que Rodrigo, amigo do filho dela, havia lhe telefonado de madrugada avisando que eles estavam em quatro quando sofreram o ataque de um grupo de carecas na Avenida Paulista. Rodrigo revelou ainda que ele e Esdras conseguiram fugir, mas Adonis e Marcelo, não. O rapaz havia dito que eles foram atacados por estarem abraçados e felizes e foram confundidos com gays pelo grupo de carecas agressores.
   
Dona Berenice muito chocada com a violência que o filho sofrera disse ao casal que assim que recebesse notícias do filho iria a uma delegacia registrar esse crime. Ela sugeriu que os dois também deveriam fazer o mesmo para que a polícia pudesse com isso procurar os assassinos do filho deles e que também haviam agredido brutalmente o seu filho. Nesse momento um sentimento de vingança invadiu Severo. Num primeiro momento concordou com a ideia da mãe de Marcelo, mas ao lembrar do que havia dito a recepcionista do hospital sobre o filho, teve medo que a repercussão do caso pudesse levantar suspeitas sobre o filho dele ser gay. Com ódio nos olhos que se misturava com o semblante de dor, Severo disse para Amália que denunciaria o crime. Pensou no momento em que encararia frente a frente os assassinos que haviam desfigurado o rosto do seu filho daquela forma e lhe tirado a vida. Sentiu ira. Foi aconselhado por dona Berenice a prestar queixa numa delegacia próxima à Paulista com Haddock Lobo, local onde havia acontecido o ataque homofóbico contra os seus filhos. Na cabeça de Severo muitos pensamentos se misturavam:

“Meu filho não era homossexual, não, não pode. Não pode ser, meu filho era homem”

Esse pensamento vinha em meio a outros numa busca de Severo por encontrar na memória uma prova para si mesmo que confirmasse a heterossexualidade do seu filho. Imerso nas suas memórias vagueava em pensamentos:

“Nunca vi meu filho com namorada, mas meu filho não podia ser gay, não. Meu filho não podia ser gay”
                                              
Esses pensamentos todos de Severo se misturavam com a lembrança da fala da atendente evangélica que o reconhecera dizendo que Adonis havia chegado vestido de mulher e com a cara pintada como “os travestis”.

Severo, Amália e Berenice chegaram juntos à delegacia. Quando conseguiram ser atendidos pelo delegado, Berenice tomou a palavra e relatou o acontecido dizendo que seu filho Marcelo e mais três amigos haviam sofrido um ataque de um grupo de carecas nas imediações da Avenida Paulista e que um deles tinha acabado de falecer. Relatou que Rodrigo e Esdras eram dois amigos que tinham conseguido escapar do ataque e que foram eles que algum tempo depois voltaram e socorreram os outros dois amigos e os levaram para o hospital.

Severo e Amália permanecerem calados e apenas observavam Berenice detalhar o que sabia ao delegado que diante da insistência dela prometeu chamar Rodrigo e Esdras para prestarem depoimento.

Vendo Severo e Amália ao lado de Berenice o delegado perguntou se eles estavam ali a sua espera. E Severo respondeu baixinho e quase sussurrando:

-Delegado, acabamos de receber a notícia da morte do nosso filho, ele foi uma das vítimas do ataque homo-fóbico  e estava junto com o filho dela.

Era talvez a primeira vez que Severo pronunciava a palavra homofóbico.

O delegado não entendendo a fala final, perguntou novamente para Severo:

- Ataque...o quê???

Ao ver que Severo não conseguiu pronunciar novamente a palavra, Berenice então respondeu:

- Eles foram vítimas de um ataque homofóbico. Pensaram que eles fossem gays.

E então o delegado perguntou:

- Mas os filhos de vocês são homossexuais?

De um salto e com um grito Severo levantou e respondeu:

- Não, delegado! Meu filho é homem e respeita a lei de Deus!

Disse Severo ainda usando o verbo no presente sobre o filho que acabara de perder. O delegado disse que iria ouvir os outros rapazes, mas especulou que poderia não se tratar de homofobia e que talvez fosse briga de gangues rivais.

Dona Amália que quase nem conseguia falar, questionou:

-Mas delegado, até agora tudo que sabemos leva a crer que foi um ataque homofóbico, confundiram nossos filhos com gays e...

Antes que Amália completasse a frase Severo a interrompeu e disse bem alterado:

-Delegado, nosso filho não é gay. O senhor precisa prender esses bandidos que mataram meu filho e enquadrá-los pelo crime que cometeram.

Nesse momento foi o delegado que interrompeu o pastor e dizendo:

-Senhor, entendo sua dor e vamos fazer de tudo para encontrar essa gangue, mas adianto que não posso enquadrá-los por crime de homofobia, não existe essa lei no Brasil.

E completou o delegado:

- Caso a gente consiga efetuar a prisão de algum dos agressores, o que podemos fazer é apenas enquadrá-los por lesão corporal seguida de morte. Esse é o procedimento nesses casos, mas temos que apurar primeiro para sabermos o que aconteceu de fato.

Disse ainda:

- No momento, o que posso adiantar para vocês é que crimes por motivação homofóbica têm acontecido com certa frequência nas imediações da Paulista.  Não faz muito tempo que um casal gay foi atacado com golpes de lâmpadas fluorescente no rosto, vamos investigar o caso dos filhos de vocês.

Finalizou o delegado já dispensando os três.

Em silencio Severo ouviu as palavras finais do delegado e depois chamou a esposa para ir embora. Dona Berenice também deixou a delegacia junto com o casal. Na porta trocaram números de telefones.

Antes de entrar no carro, Severo ouviu uma música que vinha de uma lojinha que vendia vinis antigos: “Por quem os sinos dobram? O tempo continua sua marcha, por quem os sinos dobram? Olhe para o céu antes de morrer é a última vez que ele olhará, rugido sombrio, rugido poderoso enche o céu que se despenca. A meta estilhaçada enche sua alma com um choro cruel”

Era rock o que tocava. Severo se lembrou que sempre proibira Adonis de ouvir essas “músicas do mundo” e sempre pregou que rock é música demoníaca. Lembrou-se também de certa vez que destruiu um disco de rock que o filho havia recebido como presente de um dos poucos amigos que tinha fora da igreja. Sentiu um pouco de remorso, mas entrou no carro onde a esposa Amália chorosa e desolada já lhe esperava.

No carro, o casal seguiu silencioso, o que se ouvia era apenas os soluços do choro da mãe de Adonis. Severo e Amália precisavam tratar das questões práticas para o velório e sepultamento do seu único filho.

No caminho, o carro de vidros escuros do casal cruzou com um grupo de pessoas que protestavam próximo ao MASP. Havia muitas bandeiras do arco-íris tremulando e Severo sentiu-se incomodado ao ver Amália olhando na direção daquela manifestação e rompeu o silêncio:

- Adonis não era gay, minha querida.

Ao que Amália colocando a mão sob o peito como se quisesse estancar a dor que fazia seu  coração  sangrar, naquele momento ainda conseguiu responder ao marido:

-No que isso importa, Severo? Nosso filho agora está morto, Adonis está morto! Minha vida se acabou!

Repetiu chorosa e com voz embargada e inconsolável dona Amália, mãe de Adonis. 



Autor: Jadilson Rodrigues

 


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

"Vem pra rua"! Retrospectiva 2013, perspectivas para 2014

Jornadas de Junho de 2013: o Brasil saiu às ruas para reivindicar e lutar por seus direitos  

O ano de 2013 entrou para a história como o ano em que os brasileiros saíram às ruas para reivindicar e lutar por seus direitos. E para surpresa de muitos, as Jornadas de Junho de 2013, como ficou conhecida as manifestações ocorridas no Brasil, aconteceram justamente durante a realização de um evento futebolístico, a Copa das Confederações, logo no Brasil, que é conhecido como “país do futebol”, muitos brasileiros saíram às ruas questionando “Copa pra quem?”. E num país onde o trânsito está cada dia mais caótico, de transporte público caro e de baixa qualidade, foi justamente o “slogan” da propaganda de uma fábrica de automóveis o “Vem pra rua” é que se transformou no lema das ruas, música dos manifestantes e “hashtag” nas redes sociais como chamada à luta. Mas quem seriam esses manifestantes, ou vândalos, como grande parte da imprensa do país - também duramente criticada nas manifestações - insistiu e ainda insiste e preferem denominá-los? Os manifestantes são os sobrinhos da Falta de Saúde, os primos da Falta de Educação, tios da Insegurança Pública, irmãos da Falta de Transporte e Moradia, netos da Desigualdade Social e de Gênero, irmãos siameses da Falta de Oportunidades, bisnetos da Corrupção e tataranetos da Inércia e Desprezo do governo e do Congresso Nacional em relação às questões dos direitos civis e humanos de grande parcela da população brasileira.

Enfim, 2013 foi o ano em que as pessoas saíram às ruas para lutar e reivindicar seus direitos. Que em 2014, o ano das Eleições e da Copa do Mundo, continuemos nessa luta por um Estado Laico de fato, por um Estado verdadeiramente democrático de direito, que respeite as liberdades de manifestação coletivas e individuais, o direito de ir e vir dos seus cidadãos, um Estado onde a polícia seja desmilitarizada e humanizada. Lutemos por um Estado em que saúde, educação, segurança pública, moradia e transporte público seja um direito e não um privilégio para os que podem pagar. E em ano de Eleições faz se necessário não fugirmos da luta por um Brasil onde os Direitos Humanos há muito vilipendiados e desprezados pelo governo federal e pelo Congresso Nacional não sirvam NUNCA como moeda de troca por poder político em detrimento das garantias constitucionais. Afinal, o próprio Artigo 1º da Constituição Federal que é norteada pelo princípio da dignidade da pessoa humana possui como principais fundamentos: a cidadania; a dignidade da pessoa humana e no seu Artigo 3º diz que constituem como seus objetivos fundamentais: construir uma sociedade livre, justa e solidária; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Que venha 2014 e que ele seja de luta por um Brasil melhor!





quinta-feira, 17 de maio de 2012

17 de maio: Dia Internacional de Combate à Homofobia



Há exatamente 22 anos, no dia 17 de maio de 1990 a Assembleia geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) retirava a homossexualidade do seu Código Internacional de Doenças (CID).  Em razão dessa decisão da OMS, que aconteceu no dia 17 de maio, essa data passou a ser também o dia em que é comemorado o Dia Internacional de Combate à Homofobia.


Em 1973, a American Psychology Association (APA) nos Estados Unidos retirou o “homossexualismo” da lista dos distúrbios mentais, passando a ser usado o termo homossexualidade. O sufixo “ismo” que remetia à “doença” foi substituído por “dade” que remete a “modo de ser”.


No Brasil, cinco anos antes da histórica decisão da OMS, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) já havia deixado de considerar a homossexualidade como desvio sexual. No ano de 1999, o CFP formulou a Resolução 001/99 considerando que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão. Essa resolução do CFP estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à orientação sexual. Considerando que a Psicologia pode e deve contribuir com seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade, permitindo a superação de preconceitos e discriminações. A Resolução 001/99 do CFP resolve:


# Art. 1° – Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão, notadamente aqueles que disciplinam a não discriminação e a promoção e bem-estar das pessoas e da humanidade.


# Art. 2° – Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.


# Art. 3° – Os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.
# Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura da homossexualidade. 


# Art. 4° – Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.



Em várias partes do mundo são organizadas diversas atividades para lembrar o Dia Internacional de Combate à Homofobia. No Brasil, uma delas é foi a III Marcha Nacional contra a homofobia que aconteceu ontem (16/05) em Brasília com o tema "Homofobia tem cura: educação e criminalização". Além da Marcha aconteceram também o 9º Seminário LGBT: Respeito à diversidade se aprende na escola e também o Seminário: Diferentes, mas iguais que discutiu o substitutivo do Projeto de Lei da Câmara 122 (PLC122) que criminaliza a homofobia. E ainda dentro das atividades do Dia Internacional de Combate à Homofobia acontece, hoje (17/05), na sede da OAB do Distrito Federal palestra com o deputado federal Jean Wyllys que tratará da questão da homofobia e dos Direitos Humanos.




Link com a íntegra da Resolução 001/99 do Conselho Federal de Psicologia (CFP)
http://pol.org.br/legislacao/pdf/resolucao1999_1.pdf

terça-feira, 3 de abril de 2012

Bastidores do Brasil em 2002 ou 2012?

Capa livro Devassos no Paraíso: edição revista e ampliada

Em 2002, o escritor, jornalista, dramaturgo e militante LGBT João Silvério Trevisan, um dos fundadores do Grupo Somos, lançou uma edição revista e ampliada do seu livro Devassos no Paraíso. Sem exageros, essa obra de Trevisan pode ser considerada leitura essencial para quem quer entender a história do surgimento do movimento LGBT brasileiro. Em Cinema Íris e os bastidores do Brasil, nome do capítulo introdutório de seu livro, Trevisan relata fatos que, apesar de terem sido escritos há exatamente uma década - levando em consideração o ano de lançamento dessa nova edição - parecem ter sido escritos observando a atual realidade em que vivem os homossexuais brasileiros. Para ilustrar a grande semelhança do que escreveu Trevisan há uma década com os fatos que acontecem em 2012 transcrevi abaixo um trecho do capítulo do livro e no final postei links de acontecimentos atuais. A leitura desse trecho escrito há dez anos por Trevisan nos serve como alerta do quanto o Brasil, seja nos aspectos políticos como nos de comportamento, parece permanecer estagnado no que se refere à realidade vivenciada por seus homossexuais.


Bastidores do Brasil em 2002 por João Silvério Trevisan


Cinema Íris e os bastidores do Brasil


Já dizia o poeta italiano Pier Paolo Pasolini que o tabu da homossexualidade é um dos mais sólidos ferrolhos morais das sociedades pós-industriais, com base em novos e velhos argumentos. Além de ser inútil para reprodução da espécie, a pratica homossexual solaparia a família (em cujo seio se geram novos consumidores) e seus padrões ideológicos (cuja ordem é consumir). Se hoje talvez pareça impensável o extermínio maciço de homossexuais, como ocorreu no passado em nome de certa pureza de costumes, o que temos em lugar do triangulo rosa nazista é uma generalizada desqualificação moral, de modo que “o homossexual continua vivendo num universo concentracionário, sob o rígido controle da moral dominante”, nas palavras de Pasolini. E eu acrescentaria: sob o controle também da mentalidade empresarial, em época de globalização do mercado. Na verdade, neste final de século o vácuo político-ideológico, a crise do capitalismo e a recrudescência dos credos religiosos institucionalizados criaram terreno fértil para as execrações morais, insufladas agora por um milenarismo de olho no capital.

Resolução do Conselho Federal de Medicina que estendeu o benefício da reprodução assistida para
"todas as pessoas capazes" possibilitou que o casal Mailton e Vinícius realizasse o sonho de formar
família. Maria Tereza com seus pais e sua avó foi registrada com dupla paternidade.
E a homossexualidade pode ser alvo fácil de um novo fundamentalismo político-empresarial – que a torna bode expiatório da generalizada crise de esgotamento moral dos nossos dias e, assim, une bancadas políticas díspares de evangélicos, ruralistas e católicos contra a “decadência moral”. Sobretudo após a derrocada do sistema político comunista, generalizaram-se e se radicalizaram as regras de consumo nas sociedades de economia globalizada, tornando hegemônicas as leis de mercado, no mundo todo. O que importa mais do que nunca é o consumo, de modo que a própria moral passou, em certa medida, depender do mercado – como mostram as incursões “avançadas” da TV Globo na área dos costumes. O casal guei da novela A Próxima vítima (1995) certamente tornou-se possível porque pesquisas indicaram que o filão homossexual apresenta enorme potencial consumidor, mas também por causa do crescimento de audiência sempre que uma “coisa proibida” vai ao ar – e ainda assim, de modo asséptico, quer dizer, sem escandalizar o público com cenas “explícitas”, fartamente mostradas na telinha quando de trata de casais heterossexuais. A fragilidade dessa “aceitação” fica evidente se lembramos que o consumismo das sociedades industriais é autofágico: assim como o quadro político-econômico baseia-se no oportunismo do lucro, o consumo funciona como uma faca de dois gumes. Nesse sentido, não é contradição, mas corolário lógico que uma bancada rica e poderosa como a dos evangélicos representados no Congresso Nacional imponha à nação brasileira propostas reacionárias que deveriam ser consideradas historicamente superadas, por causa da sua clara inspiração sectária e antidemocrática.

Membros da Frente Parlamentar Evangélica protestam contra decisão do STF que reconheceu a união civil homoafetiva
No caso de muitas religiões neopentecostais, por exemplo, o controle moral está firmemente ancorado numa mentalidade voltada para o lucro material, por mais impensável que isso pudesse parecer, considerando o puritanismo dos pentecostais históricos. Veja-se o caso da Igreja Universal do Reino de Deus: a mediação com o divino passa pela troca de favores (“Deus lhe dará em dobro o que você der para sua igreja”) e pelo firme controle moral (“tire o demônio de dentro de você”), que chega a se processar através de exorcismos públicos. Assim, em nome de um novo consumo – agora religioso – a homofobia comparece, com redobrada virulência, através desses empresários da fé e da moral. E os fatos não se restringiram a meros ataques verbais: em Salvador abriu-se um centro evangélico para “recuperação” de homossexuais, liderado por um vereador local, enquanto em São Gonçalo (estado do Rio de Janeiro) foi criada uma igreja evangélica especializada em “curar” homossexuais, cujo objetivo manifesto é fazer o pecador sentir desejo por mulher.

TREVISAN, João Silvério. Cinema Iris e os bastidores do Brasil. In:____. Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. 5. ed. rev. e amp. Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 19.

Bastidores do Brasil em 2012

09/01/2012: Bispo Edir Macedo (IURD) comete charlatanismo ao 'curar' gay e'queimar' Aids

Com gritaria típica de sessões de exorcismo, Edir Macedo (IURD), com o auxílio de dois pastores, promete “queimar” enfermidades e Aids de um rapaz, além de expurgar os “espíritos imundos”, entre os quais o da homossexualidade. 
http://www.paulopes.com.br/2012/01/macedo-volta-cometer-charlatanismo-ao.html

Sem afeto, beijo ou identidade: no final da novela autor mostra apenas os pés do amante de Crô. 
12/01/2012: Marcelo Serrado e o perigo do beijo gay

Ator Marcelo Serrado interpretou personagem gay mais delicado em novela global, mas afirmou ser contra o beijo gay. Na tentativa de disfarçar a proibição da emissora em exibir demonstração de afeto ou beijo entre personagens gays o autor faz suspense durante o desenrolar da trama, mas esconde a “coisa proibida” - como disse Trevisan - num falso clima de mistério para justificar a não revelação do amante do personagem Crô mostrando apenas seus pés.

28/02/2012: Intolerância: Deputado do PSDB cria projeto para ‘curar gays’

Contrariando a Resolução 001/99 do Conselho Federal de psicologia que veda o tratamento da homossexualidade, deputado federal João Campos (PSDB-GO), líder da Frente Parlamentar Evangélica da Câmara cria projeto que pretende permitir que a homossexualidade seja tratada como um transtorno passível de cura.

01/03/2012: Não sei colocar minhoca em anzol, diz novo ministro da Pesca

Marcello Crivella (PRB/RJ), membro da Frente Parlamentar Evangélica declaradamente contra os direitos civis de LGBT é escolhido como ministro da Pesca do governo Dilma Rousseff e representa a ascensão dos religiosos ultraconservadores ao poder Central.  

08/02/2012: Após 'Dia do Orgulho Hétero', vereador de SP quer banheiro gay

27/03/12: Ecce homo ( sobre projeto que propõe a criação do "Dia do Orgulho Hétero" no RJ)  

Uma nova onda de iniciativas homofóbicas agita as Câmaras Municipais de São Paulo e Rio de Janeiro. Imitando a iniciativa do vereador Carlos Apolinário (DEM/SP) membro da Frente Parlamentar Evangélica, Carlos Bolsonaro (PP/RJ) criou também uma versão carioca do Dia do Orgulho Heterossexual além de outro projeto que proíbe a distribuição de materiais sobre diversidade sexual nas escolas públicas da cidade.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/ecce-homo/

Contrariando a laicidade do Estado Frente Parlamentar Evangélica realiza culto no Plenário da Câmara Federal 

21.03.2012: Evangélicos e ruralistas podem selar casamento

27.03.2012:  A vitória das bancadas ruralista e religiosa

Um antigo flerte entre as duas bancadas mais representativas do Congresso, a Frente Parlamentar Evangélica e a Bancada Ruralista está prestes a virar casamento. Juntas, as duas bancadas podem reunir 170 votos, o que representa 33% do parlamento. É quase o dobro da bancada do PT (85 deputados), a maior da Casa. Congressistas que representam os interesses dos grandes produtores rurais e dos líderes religiosos conquistaram grande evidência nos últimos meses, impondo uma série de derrotas ao governo federal.

Bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD): “Minha intenção não é abençoar as pessoas, mas a minha [...] intenção é trazer um resultado pra Igreja [...] minha intenção é subir com a igreja materialmente”

Foto postada no Grupo LGBT Brasil no Facebook


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Comunidade LGBT Brasil cria cartilha para orientar o voto nas eleições 2012/2014


Por que é importante votar em candidatos pró-LGBT?

Pode parecer óbvio que é importante votarmos em candidatos que nos representem, seja para Presidente da República ou para vereador de nossa cidade, mas o que de fato percebemos é que não temos sido capazes de eleger um número significativo de políticos que nos represente a despeito de sermos 10% da população e conseguirmos organizar duas paradas com mais de 1 milhão de participantes.

O que está acontecendo então?

Por que somos tantos, mas somos tão mal representados?

Uma possível resposta é que ser um LGBT é apenas parte do que somos, e temos nos esquecido dessa nossa particularidade nas eleições.

Antes de sermos LGBT, temos sido petistas, tucanos, ambientalistas, paulistas, mineiros, profissionais liberais, servidores públicos, negros, mulheres, e temos colocado todas essas questões como prioritárias, nos esquecendo de que as demandas LGBT também deveriam ser encaradas como prioridade.

Quais têm sido as consequências desse nosso descuido?

Primeiramente, os grupos que se opõem aos nossos direitos, principalmente os fundamentalistas evangélicos e católicos, estão cada vez mais organizados e articulados, ganhando cada vez mais espaço e prestígio nos fóruns políticos. Não é por acaso que o PLC 122 não avança no Congresso, não é à toa que o programa Escola sem homofobia foi vetado pela presidente. Tudo isso reflete a crescente capacidade de pressão de nossos adversários.

Além disso, temos nos permitido seguir divididos, brigando internamente, quando deveríamos estar trabalhando pelos mesmos objetivos. A disputa de LGBTs petistas contra LGBTs tucanos é o exemplo mais marcante, mas não o único. Enquanto isso ocorrer, as demandas dos LGBT ficarão em segundo plano na agenda dos políticos, uma vez que elas serão sempre percebidas como de importância menor e não determinantes para a vitória eleitoral de qualquer grupo político.

O recrudescimento de crimes homofóbicos, as seguidas derrotas que os LGBT têm sofrido no âmbito do legislativo e do executivo federais e o fortalecimento dos nossos opositores torna urgente que nos mobilizemos e passemos a priorizar a conquista de nossos direitos sobre todas as outras questões políticas atuais.

Devemos preferir candidatos LGBT ou claramente pró-LGBT ainda que isso signifique deixar de votar no nosso amigo, parente ou partido, se estes não se comprometerem sinceramente com a nossa causa. Só assim conquistaremos o respeito (ou medo) da classe política, que perceberá que qualquer projeto de poder deve nos incluir para ser bem-sucedido.

P.S
Para acessar a íntegra da cartilha clique na imagem acima ou pelo link 

sábado, 30 de abril de 2011

Mais, bem mais informações sobre homofobia para Rica Perrone e cia

Representação da musa inspiradora, que se debruça sobre o mundo e difunde o conhecimento. Afresco de George Biddle na Biblioteca Nacional
Reproduzo abaixo comentário que o jornalista Luiz Henrique Coletto postou no blog de Rica Perrone em resposta às opiniões equivocadas e preconceituosas emitidas por seu colega de profissão. Em seu texto, Perrone resolveu falar a respeito de temas sobre os quais demonstra absoluta ignorância: homossexualidade e homofobia. O resultado não poderia ser diferente, um texto raso, desinformado e repleto de preconceitos. O texto em que apresenta esse comentário é o segundo do hiperlink logo abaixo.
*Por Luiz Henrique Coletto
Caro Rica Perrone, antes de tudo: eu e muitos outros gays (ou viados) temos muitíssimo interesse em argumentar sobre os temas que nos dizem respeito e esta, talvez, seja uma rara oportunidade. Há uma diferença substancial entre o tom do seu texto anterior (que eu vou qualificar como raso, no sagrado direito de fazer juízo de valor de ideias) e este de hoje, que foi um pouco mais educado.
Entretanto, permita-me discordar profundamente. Do de ontem eu discordei em praticamente tudo que não tive ânimo para tecer uma réplica – e felizmente outros blogueiros e jornalistas o fizeram com muita qualidade -, mesmo porque, sendo sincero novamente, era um amontoado de pérolas de quem não sabe o que é homofobia (e isto não é propriedade dos gays, mas sim de quem estuda a questão ou se permite à empatia de modo mais profundo) e fez o que muitos dos blogueiros e jornalistas (eu sou um – jornalista) fazem: falar de tudo mesmo sem se dar ao trabalho de pesquisar um pouco mais detidamente sobre a questão.
Primeiro, a ideia de que a maioria está com você é o quê? Um atestado de que você disse algo sensato ou coerente – ou que não possui homofobia? Não preciso dar exemplos de que maioria não dignifica nada necessariamente (nazismo), embora seja importante (democracia).
Segundo, você pode ser contra uma punição no vôlei. Pode ser contra qualquer punição. E contra qualquer coisa, aliás. Entretanto, ao manifestar sua ideia, sabe que receberá críticas. Ter um blog e postar nele é, inclusive, ter a mais clara noção disto.
Terceiro, a estratégia mais manjada, velha e vazia para começar uma abordagem sobre gays ou negros ou judeus ou pessoas com deficiência é dizer “tenho um na família”, “tenho amigos que são”, “convivo com eles”. Ora, existem gays que são homofóbicos, negros que são racistas (etc.), portanto a ideia de que ter alguém que seja gay no seu convívio valida sua opinião ou confere um grau de “isenção de preconceito” a ela é uma ilusão completa. Note que a questão aqui é a relação da homofobia com o esporte (sua área de trabalho, presumo), e não artistas gays, carnaval ou o que seja, afinal, é simples colocar tais exemplos sem que eles sejam pertinentes à discussão em si. Criticou-se sua visão homofóbica (eu explico depois) em relação ao caso da homofobia no esporte (que você ignora). Além disso, o seu completo desconhecimento sobre o que seja orientação sexual. Você, inclusive, não faz qualquer questão de saber sobre o assunto, opina sobre ele e sente-se ofendido quando é criticado de forma veemente? Como assim?
Quarta questão: ninguém está questionando o seu direito (e o de todos) de gostar e não gostar de qualquer pessoa. Isto é claro como a luz e não está em discussão. Entretanto, não gostar de todo um grupo social a partir de uma característica constitutiva sua (negritude nos negros; homossexualidade nos gays) – e podemos ir além, pensando em características socioculturais que também são constitutivas, como a origem social, a religiosidade, etc. -, isto precisa ser bem pensado. É um sinal, sim, de preconceito. Poderia abordar a questão mais longamente, mas o que interessa aqui é: mesmo sendo um grupo social todo, você realmente não é obrigado a gostar de ou conviver com estas pessoas, a não ser em espaços públicos.
Quinto, este papo de não sou de grupo, ONG, ou partidário de algo pró ou contra é pura balela. Sua opinião é pró ou contra algo, e estando ou não formalmente inserido num grupo, você terá suas opiniões relacionadas a de outros que pensam similarmente a você. O fato de o terem comparado com “radicais héteros” (risos) e ao Bolsonaro é um indicativo disto. Muito embora lendo seu texto de hoje eu não possa compará-lo ao Bolsonaro (que numa “escala de homofobia” minha, estaria muito acima de você), você não deixou de manifestar homofobia e de ser, sim, visto como aliado de quem não defende os gays. Lembrando: respeitar é defender o direito de existência. Eu posso não ser um “militante pelos ciganos”, mas se eu não defendo o direito de existência real e plena dos ciganos, eu sou contra eles.
Sexto (e mais importante): a sua frase a seguir é que indica o principal problema com sua “homofobia não esclarecida”. Você diz, “eu só fui contra uma punição e tentei explicar aos amigos que no futebol sempre foi assim e que a atitude daquela torcida não foi homofobica. Foi comum, natural”. Todos nós sabemos que esta atitude (a homofobia) é comum no futebol; é por isso, inclusive, que há quase nenhum gay assumido no futebol brasileiro, porque a homofobia é gritante. Se você realmente entende de futebol, sabe que há muitos gays ali, mas todos no armário.
A atitude daquela torcida foi sim homofóbica. E não foi natural. E eu entendo totalmente a dificuldade de você (e a maioria dos seus leitores, enfim, da sociedade) ver isto por uma simples razão: homofobia não é um acontecimento raro que vem dentro de uma nave espacial e “brilha” na nossa cara; homofobia é parte da nossa cultura, está na nossa linguagem (quase todos os termos que identificam a homossexualidade e os gays são utilizados, no cotidiano, como ofensa: gay, viado, bicha, baitola, puto, marica, mulherzinha – este é misógino também! – e muitos outros), na nossa educação, até bem pouco tempo de forma massiva na imprensa, etc. Eis o ponto: a homofobia não é natural, ela foi NATURALIZADA. É exatamente assim que ocorreu com a dominação masculina sobre as mulheres: foi naturalizada para dentro da cultura por tantos milênios que só depois de todo um conjunto de manifestações, teorias, intelectuais, lutas e passeatas que começou a ser combatido (divórcio, voto igualitária, leis trabalhistas, etc.). O mesmo em relação aos negros, às pessoas com deficiência e outros grupos sociais. Volte no tempo e o mesmo ocorreu também com canhotos, com cientistas (eram as bruxas da fogueira católica)…
Quando se grita “viado” para o jogador a intenção é desestabilizá-lo? Sim. E isto ocorre por meio de uma ofensa? Sim. Então em que ponto está a dificuldade de ver homofobia nisto? Se homofobia é preconceito contra gays (conceito reduzido), utilizar uma palavra que indica homossexualidade tentando ofender/desestabilizar alguém é, voilà, homofobia. Claro como a luz mais uma vez.

Torcida do Vôlei Futuro exibe bandeira em apoio ao jogador Michael 
“Puta, ladrão, gordo” e outros xingamentos “naturais” (é?) dentro do futebol também são ofensivos e discriminatórios. E utilizá-los como argumento para defender a homofobia no futebol é ignorar que são todas palavras ofensivas. Entretanto, como muitos blogueiros já disseram (e não sei se você leu), ninguém é sistemática, cotidiana e especificamente ofendido, agredido, humilhado, demitido e mesmo assassinado por causa de tais xingamentos. Acho até desgastante ter que analisar cada um dos xingamentos para ver qual a diferença entre puta, gordo, ladrão e etc. enquanto palavras que indicam uma característica ou uma vivência ou uma atitude criminosa, etc.
MEC e Unesco lançam livro que trata da homofobia nas escolas
Não há país no Ocidente que não tenha militância, dados, informações e setores que discutam a homofobia. Isto inclui a Organização Mundial da Saúde e vários organismos da própria ONU. Apenas isto já deveria ser um sinal de que, sim, há algo de específico na homofobia e que ignorar isto para defender o caráter “natural” da discriminação aos gays no futebol é, voilà, ser homofóbico e perpetuar a homofobia. Foi, infelizmente, o que você fez.
Sétimo ponto: quanto ao tema do “filho gay”, prefiro nem comentar muito. Acho que uma boa tirada foi feita no twitter sobre isto: há quem pense em ter filhos como se fosse ter um animal de estimação. Estas comparações rasas entre pessoas e coisas (cores, chocolate e outras que você fez) é uma redução do debate tão grande que fomenta as agressões que você recebeu. E com considerável razão, já que este país é muito homofóbico, estamos num momento de alta exposição da homofobia na mídia (protesto nazifacista em São Paulo, declarações do dep. Bolsonaro, homofobia no esporte!) e você postou um texto que é homofóbico e que reflete, sim, sua homofobia, mesmo que ela seja por desconhecimento do que seja homofobia e suas diversas formas de ocorrência. Aliás, por que ninguém grita “sapatona” no show da Maria Gadu? Provavelmente seria um constrangimento. No jogo pode por quê? Talvez porque no “calor do momento” tentemos achar uma forma rápida de atingir (o seu sutil “desestabilizar”) o adversário: qual a melhor estratégia senão aquela que o ofenda rapidamente? Então chamar de viado é um clássico exemplo. E isto não é homofobia na sua visão…
Oitavo: é ridículo você fazer drama com a enxurrada de críticas. Milhares leram seu texto ontem, mas outros milhares (e arrisco que quase nenhum dos primeiros milhares fosse gay) leram depois porque alguém notou a homofobia gritante do seu texto e divulgou. Seu texto pode ser lido daqui a 10 anos aqui e gerar mais milhares de críticas. O que é colocado na internet pode ficar nela para sempre. E um jornalista sabe disso. Aliás, quase todos sabem disso.
Penso que somos “previsíveis” por uma razão simples: a homofobia é previsível. Você sabia que estava mexendo num tema delicado e, portanto, sabia que seria criticado. Confundir as duras críticas com “sacanear” é muito pueril. A estratégia de boicote aos patrocinadores de uma empresa/blog é a mais comum em países como os Estados Unidos, França, Inglaterra e outros. Aqui no Brasil também tem começado a ser assim. E é uma das únicas estratégias eficientes numa sociedade capitalista. Eu considero seu texto profundamente homofóbico e tenho a intenção de combatê-lo (suas ideias) como for possível, o que inclui boicotar quem te patrocina.
Homossexualidade não é opção
Nona questão: orientação sexual (é o termo atualizado para a velha ideia de opção sexual) nunca foi opcional em lugar ou tempo algum. Este debate é tão longo que eu vou colocar apenas um ponto de caráter “lógico”: a menos que se considere que todos os gays sofram de algum transtorno psicológico profundo que os atraia para a dor (e, para a tristeza de tantos, não é o caso), nenhuma pessoa em sã consciência escolheria ser homossexual numa sociedade que repudia os homossexuais no seu sistema educacional, na imprensa, nas religiões majoritárias, na política, no sistema trabalhista, nas famílias, nos espaços públicos; numa sociedade que os nega dezenas de direitos civis, que até pouco tempo os considerava doentes, que há algum tempo os tentava curar (sic) com experimentos corporais, hormonais e psicológicos e que, num tempo quase remoto, os prendia, os torturava e os queimava. Alguns milhares de gays mortos no nazismo e alguns milhares de gays atualmente ainda enforcados, apedrejados e assassinados em vários países são a prova viva (e MORTA) de que ser gay não é nada fácil. E por gays estou falando de lésbicas, travestis e transexuais também. Logo, ignorar todo o contexto social em que vivemos para gritar que é uma opção é desconhecimento profundo. Se hoje eu tivesse a “faculdade de escolher” ser gay ou hétero, sem titubear escolheria ser gay. Mas isto é fruto de muita pancada e muita reflexão. Portanto, ninguém escolhe quem o atrairá, seja um homem, uma mulher ou ambos.
De qualquer modo, mais importante é: se fosse opcional, continuaríamos na mesma situação deste debate. Eu tenho direito de fazer o que quiser com minha vivência sexual, contanto que não obrigue ninguém a nada e o faça com pessoas civil e mentalmente sãs. Tudo muito simples.
Décimo: se você nunca foi tão ofendido na sua vida, talvez tenha mais clareza do que seja ser ofendido toda a vida. Talvez tenham sido apenas discordâncias das suas ideias, afinal, foi apenas sinceridade de quem discordou de você, as pessoas não quiseram ser hipócritas fingindo que você foi autêntico e crítico no seu texto… A gente leu algo assim por aqui não?
Representação dos frutos da ignorância no mundo: violência, morte, desespero. Afresco de George Biddle na Biblioteca Nacional
Confundir preconceito com moda (oi?) é difícil classificar: ingenuidade, má fé, preconceito mesmo? A solução é muito simples: procure um historiador, um biólogo, um médico, um psicólogo, um antropólogo, um cientista político e pergunte a eles se a homofobia é uma moda recente, tipo, criada ontem pra “causar bafo e dar pinta” no futebol. Você pode continuar achando que “o que houve no jogo de Voley, pra mim, não foi preconceito”, pois é um direito absoluto seu achar qualquer coisa. Ainda assim, a homofobia continuará sendo algo real, muito presente no futebol, e não uma moda recente. Assim como a gravidade continuará existindo se você quiser achar que não. Achismo não muda a realidade.
Por fim, acho que conhecimento real de um assunto é que uma coisa “muito fora de moda”. Sem isso, é fácil falar. Difícil é ouvir. E compreender as duras críticas de quem tem conhecimento do assunto. Você, admita ou não (acho que admitiu), não sabe nada sobre o assunto, apenas sabe que há séculos grita-se “viado” no futebol e, já que fazem isso há tanto tempo, deve ser natural. É tão natural quanto era queimar negros em árvores nos Estados Unidos no começo do século XX. “Um dia” alguém disse que não era que se precisava mudar aquilo. Certamente um “outro alguém” rebateu perguntando “qual é a novidade em um negro ser queimado na árvore? Qual foi o dia, dentre os últimos 9 milhões de dias, onde não fizemos isso?”.
Provavelmente uma comparação tosca. Para argumentos toscos.
É isso, aí estão minhas críticas. Passar bem.
*Luiz Henrique Coletto, jornalista graduado pela UFSM e mestrando em Comunicação e Cultura na UFRJ. Estuda discurso e pesquisa sobre (homo)sexualidade, em especial na mídia.

ARTIGO NA REVISTA ECO-PÓS:

A Homossexualidade em Veja:  Limites e Expansões de Sentidos
Márcia Franz Amaral e Luiz Henrique Coletto
Disponível em: http://www.pos.eco.ufrj.br/ojs-2.2.2/index.php/revista/article/view/363/407